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dormência, enquanto durmo produzo substâncias

A ação consistiu em plantar inhames e cúrcumas em algumas praças e canteiros do Jd. Europa/São Paulo.

1. Este é o bairro que foi construído no final da década de 20 do séc. XX e destinado à classe dominante paulistana – o que se mantém até os dias atuais. Nele, moram ou possuem propriedades, políticos, ruralistas, empresários, corpos diplomáticos, celebridades. Com enorme concentração de riqueza e ruas despovoadas, atualiza com perfeição o conceito de regime colonial capitalístico racializante e classista* que rasga o tecido social brasileiro. Todas as ruas foram batizados com nomes de países ou capitais européias.

2. O inhame é bastante conhecido como um dos alimentos com maior concentração de ativos depurativos, com propriedades desintoxicantes, analgésicas, anti-inflamatórias, entre muitas outras. A cúrcuma é um alimento riquíssimo e praticamente sagrado para os adeptos da ayurveda (medicina ancestral indiana), tem variados usos medicinais atuando principalmente em tecidos inflamados.

3. Entre os agricultores, costuma-se dizer que os tubérculos “dormem” no inverno (de maio a agosto) e começam a brotar a partir de setembro, sendo outubro e novembro os meses de seu auge. O plantio destes tubérculos em agosto traz a informação de que estarão dormindo pelos próximos meses mas isso significa também que enquanto dormem, eles multiplicam em 20 mil vezes a sua potência de criação (nutrientes e substâncias) porque precisarão desta força para perfurar a terra e brotar.

4. No começo de março/abril, quando as pessoas puderam se dedicar ao confinamento, foi muito impactante saber que a terra mudou a vibração sísmica, os ruídos na crosta terrestre diminuíram. Um amigo comentou: “imagina se todas as pessoas do planeta pudessem pisar com os pés descalços na terra ao mesmo tempo, um acontecimento surgiria, uma vibração outra.”

5. Eu penso na cura como algo molecular, sutil – um espaço interseccional e micropoliticamente produtivo –, um tipo de ensinamento que se instaura e reorganiza aquilo que estava doente, a anomalia. Não é um apaziguamento nem um fechamento, é sustentar uma vibração até que uma irresolução possa se tornar um acontecimento de outra ordem, da ordem da vida.

A ação é acompanhada de um texto:

Experiência do agora. A gente sabe. E é porque somos habitadas por um corpo anterior ao corpo-vida-agora e ele é o que sabe. Ele come inhame e se lambuza, o corpo que come e desinflama, expurga, expulsa o pus que o corpo-vida-agora produz.

Nós, o corpo-inhame, reivindicamos as palavras e a nossa baba é pura matéria mole mastigável em nossa boca e língua. Palavras atravessam nossa carne e regurgitam massas fermentadas em expansão de organismos vivos. Pedaços inteiros de vida caem de nossas entranhas e fazem seus caminhos na terra. Cuspimos longe e cuspimos perto, traçamos rotas e caminhos. Cuspimos na terra as nossas inflamações e ela nos devolve plantas imensas com seus sumos roxos, vermelhos, pretos escorrendo por cima dos nossos corpos. O corpo-inhame e o corpo-pus. A-gente agora somos muitas, a-gente somos plantas e juntas, nos curamos;

Reivindicamos viver por nós mesmas, viver e continuar, que parem de nos matar! Cuspimos organismos vivos fermentados na cara de quem mata. Reivindicamos habitar os ocos e as covas e buracos, estar perto das velhas donas dos mundos, as que sabem usar o fogo e os ventos – reivindicamos habitar todos o mundos.

2020
performance
40'

dormancy, while sleeping I produce substances

The action consisted in planting yams and turmerics in some squares of Jd. Europa/São Paulo.

1. This is the district that was built at the end of the twentieth century and was addressed to the upper class of São Paulo - which is still the case today. In it, live or own properties, politicians, ruralists, businessmen, diplomatic corps, celebrities. With an huge concentration of wealth and depopulated streets, it perfectly updates the concept of the racialized and classist capitalist colonial regime that wounded the Brazilian social field. All the streets have been named after countries or European capitals.

2. Yam is well known as one of the foods with the highest concentration of depurative assets, with detoxifying, analgesic, anti-inflammatory properties, among many others. Turmeric is a very rich and practically sacred food for the ayurvedic adepts (Indian ancestral medicine), it has various medicinal uses acting mainly on inflamed tissues.

3. Among farmers, it is said that the tubers "sleep" in winter (from May to August) and begin to sprout from September, October and November being the months of their peak. The planting of these tubers in August brings the information that they will be asleep for the next few months, but it also means that while they are asleep, they multiply their breeding power by 20,000 times (nutrients and substances) because they will need this strength to puncture the soil and sprout.

4. In early March/April, when people were able to devote themselves to isolation, it was very impacting to know that the earth changed the seismic vibration and the noises in the earth's crust decreased. A friend commented: "Imagine if all the people on the planet could step barefoot on the earth at the same time, one event would arise, one other vibration".

5. I think of healing as something molecular, subtle - an intersectional and micro politically productive space - a kind of teaching that establishes and reorganizes what was sick, the anomaly. It is not a appeasement or a closure, it is sustaining a vibration until an irresolution can become an event of another order, of the order of life.

The action is accompanied by a text:

Yam yam yam yam minimum movement, turnaround! The utter experience of now. We know. And it is because we are inhabited by a body prior to the body-life-now, and it is what it knows. It eats yams messily, this body that eats and is soothed, purging, expelling the pus that the body-life-now produces. The pus of empty choleras, of games of me and them, of relational powers.
We, the yam-body and the pus-body, demand the words and our drool is pure soft chewable matter in our mouths and on our tongues. Words sink through our flesh and regurgitate expanding fermented masses of live organisms. Entire pieces of life fall from our gut and forge their way in the dirt. We spit far and we spit near, we trace routes and paths. We spit in the earth our inflammations and in return it gives us immense plants with their red, purple, black sap that seeps over our bodies. The yam-body and the pus-body. We are now many, we are plants and, together, we cure ourselves.

2020
performance
40'